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Uniforme hospitalar: como reduzir a colonização por bactérias?

Jalecos e roupas privativas podem abrigar microrganismos. O que funciona para reduzir os riscos de disseminação?

A possível ocorrência de infecções a partir de microrganismos alojados em roupas e jalecos de profissionais de saúde é um assunto controverso. Um relato de caso de 1992 é um dos poucos a estabelecer essa relação direta com o uniforme hospitalar, ao identificar o Bacillus cereus, causador de meningite em dois pacientes de neurocirurgia, nas mãos dos profissionais do centro cirúrgico. Como a higienização das mãos pré-cirurgia teria exterminado a bactéria, a hipótese considerada mais plausível foi a de que tecidos do centro cirúrgico funcionaram como fonte da infecção (1). Os dois pacientes morreram.

Se estabelecer essa relação direta é difícil diante da impossibilidade de isolar todos os fatores de risco no ambiente, comprovar a existência de bactérias potencialmente nocivas no vestuário já foi algo feito extensamente em estudos científicos. Dada a plausibilidade da hipótese de transmissão direta, faz-se necessário criar protocolos de higiene que reduzam esses riscos. Uma nova revisão sistemática, publicada em março no American Journal of Infection Control, analisou os 22 estudos de maior relevância sobre o assunto. Além de comprovar que os tecidos servem como reservatório de microrganismos potencialmente perigosos, ele  dá algumas pistas sobre as medidas mais eficazes para reduzir a colonização de jalecos e vestimentas cirúrgicas (2).

Jalecos/aventais retêm mais microrganismos do que roupas privativas (no Brasil, usadas em centro cirúrgicos)?

Sim. Estudos mostram que os jalecos abrigam mais bactérias do que scrubs, aqueles trajes verdes ou azuis, que, no Brasil, são mais usados dentro do centro cirúrgico, mas que em outros países também podem ser o uniforme de outras áreas do hospital. A análise das mãos de equipes de cinco unidades de terapia intensiva (UTIs) revelou que a contaminação estava associada à presença dos microrganismos em jalecos, não nas roupas cirúrgicas (3). O motivo seria a frequência com que os jalecos são lavados – surpresa, pouca! – e a maneira como eles são lavados.

Lavagem domiciliar de jalecos e uniformes hospitalares é eficaz?

As lavanderias hospitalares ainda são os lugares mais indicadores para garantir limpeza de acordo com padrões de qualidade. Um dos fatores que contribui para que os jalecos e aventais retenham mais bactérias é que  a lavagem costuma ser feita em casa (entre 64% e 89% das vezes), segundo dados compilados na revisão sistemática. Na limpeza domiciliar, dificilmente as medidas recomendadas são seguidas, como temperatura adequada da água, secagem a quente em secadoras e alvejamento.

Com que frequência as peças de vestuário, como aventais e jalecos, devem ser lavados?

Segundo os autores da revisão sistemática, no mínimo uma vez por semana. Mas, na prática, não é isso o que acontece. Entre 5% e 65% dos profissionais de saúde relataram lavar seus jalecos apenas uma vez a cada duas semanas, segundo dados compilados no estudo. A periodicidade da limpeza pode ser ainda menor quando os aventais e jalecos são de estudantes. Nesse caso, a lavagem acontece a cada três semanas e meia, e nem os scrubs diários escapam: costumam ser usados por vários dias, sem lavar. Os autores da revisão recomendam lavagem diária de roupas privativas não usadas em contexto cirúrgico.

O tipo de tecido influencia no potencial de retenção de bactérias?

Os dados não são conclusivos. Tecidos mistos parecem reter mais microrganismos do que apenas poliéster. Porém, outros levantamentos sugerem que poliéster, acrílico e lã podem funcionar como veículos importantes para as bactérias e que o potencial do algodão para carregá-las seria menor. O que parece mais certo até agora é que, para cada tipo de microrganismo, o tempo de sobrevivência varia de acordo com o tipo de tecido. Pesquisa publicada em 2003 sugere que as bactérias podem sobreviver de 10 a 98 dias, dependendo do tipo de tecido (5). Os autores da revisão sistemática concluíram que são necessários estudos para definir o potencial de colonização dos tecidos e de transmissão.

Recomendações

Para diminuir os riscos de disseminação de bactérias e outros microrganismos a partir das roupas dos profissionais de saúde, os os autores do levantamento recomendam aos hospitais e sistemas de saúde:

• Determinar se o uniforme deve ser lavado em casa ou dentro da instituição;

• Se a lavagem será feita dentro do hospital, o serviço deve ser uma cortesia ou ter ajuda de custo;

• Recomendar que cada departamento forneça múltiplos jalecos/aventais e roupas privativas para cada profissional, a fim de incentivar práticas de limpeza

• Implementar diretrizes para a lavagem de uniformes fora do hospital. Preparar materiais para ensinar as regras e recomendações para os funcionários

Tabela com a compilação de microrganismos encontradas em tipos de uniforme hospitalar.

(Fonte: IBSP)

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